24 de Janeiro de 2009

Discurso de Inauguração da Sede / 1º Aniversário


Desde a constituição da nossa Associação um ano se escoou pela ampulheta do tempo. Um ano baptizado 2008 que, a História, possivelmente sublinhará e que, quem sabe?, poderá ser a charneira para uma outra era. Ano-charneira, portanto. Ano de todas as crises há muito adivinhadas. Ano-desespero para tantos seres que mergulharam nas mais diversas violências, nas guerras continuadas ou em renovadas misérias. Ano estranho. Ano-expectativa, também. Ano-esperança, até, porque os contrários caminham sempre de mãos dadas. Um longo ano quando nos detemos para repensá-lo, mas tão curto quando contabilizamos os projectos estacionados naquela gaveta onde se depositam os planos que, por uma qualquer razão, terão de esperar.
Por acaso ou por imperativos que nos escapam, foi este o ano escolhido para a Eco-Cartaxo nascer. Mais aturada reflexão responderá que, por acaso, os acasos são bem raros. Duma coisa não restam dúvidas: a Eco-Cartaxo nasceu num ano espantoso, bizarro, revelador… no futuro lhe darão um nome e o julgarão.
Ora, é exactamente de futuro que nós, por aqui, nos ocupamos. A sede que hoje se inaugura é apenas uma pequena porta aberta para o futuro, uma das muitas de que necessitamos. Ainda que esta tarefa de rasgar portas, horizontes ou caminhos, como se queira, não seja fácil, comporta riscos e desalentos, é exigente, sobretudo porque se alicerça num presente nebuloso e incerto.
É evidente que nem só o movimento ecologista tem a pretensão de querer moldar o futuro. De criadores de amanhãs faz o inferno saldos sempre que tem os armazéns repletos.
A pequena, mas significativa diferença é que o pensamento ecológico labora para um futuro POSSÍVEL. Possível e propício à vida. Não só da espécie humana, mas de todas as outras que povoam a natureza, imenso organismo de complexidade ainda, em muitos aspectos, insondável. Terra-Pátria de todos, interdependentes e indispensáveis. No ventre de GAIA se geram as múltiplas cadeias da dependência e os limites que ditam a vida e a morte. Esta natureza, chame-se-lhe Gaia, acidente planetário ou planeta Terra não é um conceito abstracto, fruto de qualquer filosofia ou teologia datada. É um organismo vivo, individualizado, passível de morte ou de sobrevivência.
Este conceito é o cerne do pensamento ecologista e a sua maior contribuição para a perenidade do futuro. O homem é o único dos filhos de Gaia a racionalizar esta evidência onde se inscreve a própria noção de liberdade.
Mas o movimento ecologista não é apenas um apontador dos limites de crescimentos desastrosos, das tecnologias imponderadas, dos desequilíbrios naturais e sociais ou da loucura suicidária de modelos societais decadentes. O movimento ecologista é, sobretudo, um gerador de exigências transformadoras, apelando à partilha e a uma empenhada participação cívica, sem as quais todas as tentativas estiolam à nascença. O movimento ecologista invoca a igualdade para todos os seres vivos no direito à vida e à dignidade porque todos somos filhos de Gaia. O movimento ecologista é criador de ideias renovadoras, muitas das quais têm penetrado lentamente – muito lentamente, infelizmente – o tecido social, de ideias realizáveis, práticas e com provas dadas, muitas vezes.
A Eco-Cartaxo – Movimento Alternativo e Ecologista é uma pequena parcela dessa galáxia. Mas é premente crescer. Para tal precisamos de ajuda, de todos os contributos, mas todos os outros necessitam, porventura, ainda mais do auxílio que lhes pudermos oferecer.