A Luta contra os O.G.M. (I)
Um dos assuntos que maior polémica e contestação têm desencadeado nos últimos anos é, sem sombra de dúvida, o dos organismos geneticamente modificados (OGM). As razões para tal são evidentes. Em primeiro lugar, as plantas modificadas geneticamente acabam, mais cedo ou mais tarde, por cair no nosso prato, quer directamente, quer através da carne dos animais que as consomem. Em segundo lugar, a irreversibilidade em caso de poluição genética dos terrenos, ocasionando uma verdadeira catástrofe para a biodiversidade, já bastante atacada. Por último, o desejo de algumas (muito poucas) multinacionais agro-farmacêuticas de dominar o mercado mundial das sementes e, consequentemente, dos pesticidas e herbicidas específicos que acompanham o cultivo das plantas transgénicas.
Nada irá escapar à fúria monopolista das empresas transnacionais (entre as quais prepondera a Monsanto). Cereais, oleaginosas, legumes, frutos (já agora, muita atenção aos morangos) estão a ser produzidos a partir de sementes geneticamente alteradas, particularmente grande parte do milho e da soja presentes no mercado mundial. Em 2003, 54%, o que equivale a cerca de 40 milhões de hectares, da soja cultivada no mundo era de origem transgénica. Quanto ao milho transgénico representava 11% do total, cerca de 15 milhões de hectares. Cinco anos passados, estes números foram largamente ultrapassados: a soja deverá rondar os 3/4 e o milho os 50%, ou talvez mais.
Para além dos sonhos faraónicos das multinacionais em causa, o problema sempre tem sido se serão ou não os OGM prejudiciais à saúde dos homens e dos animais e à vida dos terrenos. As organizações a quem a questão tem preocupado apelam a que, enquanto não existam provas concludentes num sentido ou noutro, se respeite o princípio da precaução. O que vai contra os interesses e estratégia das multinacionais, como é evidente.
Paulatinamente os OGM vão invadindo a Natureza, com efeitos imprevisíveis a longo prazo. Sub-repticiamente os OGM instalam-se, sem precauções nem controlo. Mas, afinal, serão os OGM prejudiciais para a saúde: da Natureza, dos homens e dos animais?
Desde Março do ano passado, segundo notícias divulgadas por alguns canais de televisão, as coisas parecem clarificar-se. Experiências efectuadas em laboratórios independentes em França e na Alemanha provaram que a variedade 863 de milho da Monsanto provoca em cobaias profundos distúrbios circulatórios e um aumento desmesurado do fígado. Por outro lado, há cerca de três anos, um estudo de cientistas independentes britânicos (Institute of Science in Society) evidenciou que todas as plantas transgénicas comercializadas apresentavam recombinações genéticas inesperadas, cujo impacto nos organismos vivos se desconhece. Em que ficamos? É claro que surgirão outros doutos pareceres que afirmarão o contrário, embora ninguém desconheça a sua origem e os interesses que defendem.
Qual é a posição dos governos e, em particular, da União Europeia que decidiu em Maio de 2004 “suavizar” a moratória em vigor desde 1999? Entretanto, inúmeras regiões europeias, nos mais diversos países, declaram-se “zonas livres de OGM”. É mais um dos casos em que a acção local pode (e deve) ser preponderante. Assim o queiram as populações e as administrações locais e regionais.
NOTA: O que é um OGM?
Tradicionalmente para melhorar as sementes cruzavam-se espécies (hibridação) cujas qualidades se pretendiam associar, segundo leis perfeitamente conhecidas e, pode-se dizê-lo, naturais. Não é o procedimento seguido para os OGM. Começa-se por isolar o “gene” a transferir e que possua a característica que interessa, antes de o produzir em série no seio duma bactéria. Junta-se ao gene um “interruptor” e genes “marcadores” que permitam verificar posteriormente se a inserção funcionou. O gene modificado é bombardeado sobre a célula a modificar (método biolístico), ou infecta-se a célula (método da transfecção) com a ajuda duma bactéria. Cultivam-se as células transformadas e graças aos marcadores identificam-se as células modificadas, cujo número é escasso: uma em mil. É esta célula que será reproduzida em grande escala. É esta manipulação, completamente diferente da hibridação, que permite transferir um gene de peixe para um morangueiro, tornando-o resistente a climas mais frios. O problema é que durante a produção industrial dum OGM não existe nenhuma garantia que o gene não vá provocar a interrupção dum gene essencial à planta ou originar uma mutação genética que possa produzir substâncias inesperadas, eventualmente nocivas.
(Segundo o livro “Les OGM en guerre contre la société”, Associação ATTAC, edição “Mille et une nuits”)