Paradoxalmente, a multiplicação das constatações alarmantes que promovem a hipótese duma evolução mais rápida do que se previa das alterações climáticas, assim como o aumento contínuo do preço dos produtos petrolíferos ou ainda a tomada de consciência das populações do mundo ocidental que vêem o seu poder de compra mirrar como um figo seco, trouxeram de novo para as luzes da ribalta os defensores do nuclear.
Com efeito, ainda há pouco tempo, estes mantinham uma atitude contida. Nos Estados Unidos – exceptuando o caso da França onde as escolhas políticas efectuadas quer pela direita quer pela esquerda socialista conseguiram marginalizar qualquer contestação digna desse nome – a ideia de que a energia nuclear pudesse ser A SOLUÇÃO para os problemas de rarefacção das energias fósseis e das consequências climáticas ligadas à acumulação de gases com efeito de estufa, estava seriamente comprometida. O impacto de Chernobyl, assim como o de outros acidentes menos mediatizados (ou mais abafados), particularmente na Califórnia, pareceria ter enormemente enfraquecido a confiança da opinião pública na sua adesão ao mito da fiabilidade e da inocuidade da indústria nuclear. E o embaraçoso problema do tratamento dos resíduos nucleares, para o qual nenhuma solução satisfatória foi, até hoje, proposta estava longe de sossegar as populações, as quais aceitam sem problemas que o lixo radioactivo possa ser acumulado na outra ponta do planeta, nos países ditos atrasados, mas não admitem, nem por um momento, que tal possa acontecer na proximidade do seu quintal.
Contudo, esta tendência parece inverter-se.
Necessidade obrigando, começam as sociedades desenvolvidas a descobrir que o seu modo de vida está gravemente comprometido e que os deuses caseiros (o deus-petróleo, o deus-gás, a deusa-electricidade) diante dos quais se prosternam diariamente lhes sugam uma talhada exorbitante da sua já magra carteira. Este assomo de consciência poderia ser salutar acaso conduzisse a uma reflexão aprofundada sobre a própria natureza da economia de mercado ultra-liberal e o seu sacrossanto mandamento: o crescimento. Infelizmente, amordaçada pelo consenso ideológico que lança o seu anátema sobre qualquer tomada de posição que contrarie esse princípio inviolável (não nos podemos esquecer que os americanos não ratificaram o protocolo de Quioto argumentando que o “american way of life” não era negociável), essa tímida lucidez verificou-se ser um maná para o “lobby” nuclear que aí descortinou uma ocasião única para ganhar novo alento e para tornar a oferecer aos desiludidos fiéis da energia-a-rodos razões para esperar a vinda de um novo deus. E, temos de o reconhecer, que lhe não faltam atractivos, Quereis continuar a viver nas delícias do consumo e do cada-vez-mais? Vinde a mim! Desejais também proteger o planeta e os seus habitantes das alterações climáticas? Vinde a mim! Viveis num país em vias de desenvolvimento e quereis ter acesso sem transição aos privilégios dos países ricos? Vinde a mim!
E eles vêem, é indiscutível! A mensagem passa, as adesões afluem, as convenções multiplicam-se. Basta olhar a evolução ideológica da esquerda social-democrata europeia para nos convencermos. Ainda há pouco tempo, a recusa do nuclear era para essa esquerda discutir um cavalo de batalha e ninguém sonhava sequer discutir com uma direita liberal, acusada de querer saldar a segurança dos cidadãos para, com o nuclear, reforçar o poderio e os privilégios dos abastados. Encontramo-nos, actualmente, a milhas desta unanimidade. O P.S. francês dilacera-se em torno desta questão e converge para um consenso pretensamente pragmático segundo o qual o nuclear poderia ser uma solução transitória. A própria Alemanha, ponta-de-lança durante muito tempo, duma oposição radical a todos e qualquer recurso ao nuclear afunda-se numa inquietante ambiguidade sobre o assunto. Os países da União Europeia, dum modo geral, abandonam-se negligentemente à ideia que, afinal, entre dois males é preciso escolher o menor que é evidentemente, sem entender, o nuclear. Nem vale a pena falar dos países emergentes que mendigam vergonhosamente a venda de algumas centrais ou que, como o Irão ou a Líbia (recordamo-nos da troca de reféns por central operada por Khadafi) estão dispostos a tudo para as obter.
Face a tal situação torna-se de novo urgente relançar toda uma argumentação que embora datando dos primórdios da Ecologia política e das lutas contra as primeiras centrais implantadas em França (muitos se recordam ainda das manifestações contra Malville ou, no caso português, contra a implantação duma central nuclear em Ferrel – Peniche) não tem um único cabelo branco, antes pelo contrário, parece ter algo de visionário. Deixemos de lado, por agora, tudo, e é imenso, o que poderia ser adiantado sobre a questão dos resíduos nucleares. Não que esta não seja essencial, mas porque apresenta, por vezes, tendência a ocultar outros aspectos do problema igualmente importantes, mas menos vezes evidenciados. Entre eles, regressemos à questão que André Gorz foi o primeiro a colocar. Para que tipo de sociedade nos encaminha a escolha do nuclear? Ao interrogar-se desta forma, o pai dos movimentos ecologistas teve a sabedoria de deslocar o debate para fora do campo estritamente científico, terreno em que era tratado habitualmente. Retomava, assim, a ideia de Sartre, segundo a qual “qualquer técnica está grávida duma metafísica”, e completando-a, de certa forma, acrescentava “…e duma organização social”.
Que tipo de organização social pressupõe a escolha do nuclear? Tentemos responder a esta interrogação que toma uma nova ressonância à luz da actual crise.
O primeiro elemento de resposta decorre da própria natureza da energia nuclear, em que os riscos possíveis, em caso de acidente, são de tal modo importantes e duráveis que é impensável iniciar-se o funcionamento duma central sem apresentar garantias absolutas de inocuidade. Qualquer sociedade que proclama alto e bom som aos seus cidadãos:”Durmam em paz, meus bravos, a vossa segurança está garantida e cem por cento porque sou infalível”. Ora, esta pretensão que obriga a ser infalível no presente, esta aposta necessária na infalibilidade futura (futuro que, devido às características físicas dos materiais radioactivos deverá ser encarado com uma duração de milhares de anos, facto a ter sempre presente) constituem, pela sua própria natureza, um risco de perversão dos valores democráticos.
Existe de facto, como facilmente se compreende, um antagonismo inultrapassável entre as ideias de controlo, de discussão, de crítica, de contestação inerentes a qualquer democracia autêntica e o postulado de infalibilidade proclamada pela sociedade nuclearizada. Postulado esse que não resiste á análise como bem o demonstra Hubert Reeves, astrofísico e ardente defensor do ambiente, na sua obra “Mal de Terre”.
Pretender que a exploração da energia nuclear é infalível, é o mesmo que pretender que são infalíveis cada um dos milhares de indivíduos que estão implicados de qualquer modo no seu funcionamento, desde o cientista que concebeu o reactor passando pelos técnicos altamente especializados que dirigiram a construção ou que controlam o seu funcionamento até chegar ao mais humilde dos funcionários.
Assim sendo, quem ousaria afirmar que nunca, em nenhuma circunstância, nenhum dos intervenientes falhará, que o simples encarregado do telefone não estará momentaneamente ausente por estar fatigado, por estar de ressaca ou simplesmente por estar a ver um desafio de futebol na televisão, exactamente no momento em que será necessário lançar o alerta sem tardar? Eis, em resumo, a argumentação de Hubert Reeves. Procurar adormecer a opinião alimentando o mito dum risco zero não é somente uma vigarice intelectual, mas é sobretudo uma forma de propaganda que, ainda que essencial à manutenção da opção nuclear (seria ainda mais perigoso, dizem-nos, assustar por tudo e por nada as populações), está completamente deslocada numa democracia.
O segundo elemento de resposta é a consequência directa do que acaba de ser constatado. Se eu pretendo assegurar a infalibilidade é, pois, necessário que eu dê um máximo de garantias. Entra-se assim numa lógica securitária que partindo da super-protecção das instalações até ao controlo de todo e qualquer indivíduo potencialmente perigoso acabará por absorver numa imensa teia de aranha a totalidade da sociedade. Olhando para o exemplo da França que fez a escolha do nuclear e que se ela pretendesse assegurar a sua independência energética com esta opção teria de duplicar o número das suas centrais, contar-se-iam brevemente e em média uma central num raio de menos de 100 quilómetros, número que corresponde mais ou menos à área de segurança que cada uma deve possuir, segundo os especialistas. Deste modo a França inteira tornar-se-ia um vasto espaço “protegido”, quer dizer, constantemente vigiado, controlado e neutralizado ao mínimo sinal. O 11 de Setembro deixou as suas marcas e o fantasma de aviões terroristas kamikazes esmagando-se sobre as centrais nucleares apavora os espíritos e qualquer indivíduo tornou-se um potencial terrorista cujos projectos criminosos é necessário prevenir. Belo pretexto – uma vez que os pontos nevrálgicos das centrais são concebidos para resistir a impactos mais violentos que os dum avião caindo sobre eles – para justificar uma vigilância acrescida das populações e para reduzir gravemente as liberdades individuais.
O terceiro elemento de resposta encaixa-se no segundo qual peça de puzzle. Quem diz segurança, diz segredo, protecção, logo retenção de informações às quais apenas um número reduzido de iniciados tem acesso. Quem serão eles? Os políticos? Alguns talvez, mas seguramente não todos. E esses políticos: o Presidente, o Primeiro-ministro, o ministro da energia, até mesmo alguns representantes dos eleitos que não sendo especialistas seriam tributários das informações que os verdadeiros especialistas estariam dispostos a dar-lhes, isto é, um punhado de engenheiros e de tecnocratas altamente especializados a quem seria, desta forma, conferido um poder incomensurável. Eis-nos em pleno numa espécie de tecnocracia que nada tem a ver com a democracia como é fácil de entender.
O último elemento tem a ver com os problemas de financiamento que, inevitavelmente, encontrará uma sociedade submetida à opção nuclear. Todos sabendo como é cara a exploração da energia nuclear quer em termos de investimento quer em termos de manutenção. Qual o Estado, actualmente, que terá possibilidade de assumir totalmente o financiamento sem recorrer a uma pressão fiscal insuportável sobre os seus cidadãos? Posto isto, que fazer senão recorrer a capitais privados? Temos já dificuldade em imaginar um Estado perfeito, isto é totalmente dedicado apenas aos únicos interesses dos seus cidadãos, sendo ãos cantos de sereia partidários ou ideológicos e incorruptível por natureza. Como acreditar um só momento que os grandes grupos industriais com ramificações internacionais seriam mais virtuosos virariam as costas às exigências dos seus accionistas, às flutuações do mercado ou a oportunidades financeiramente suculentas, em nome do interesse superior da nação?
A que tipo de organização social nos conduz, então, a escolha do nuclear? A resposta é clara: uma sociedade tecnocrática, altamente controlada e na qual a ilusão de democracia teria sido substituída pelas pretendidas necessidades de segurança. Uma sociedade que teria deixado de pertencer aos cidadãos. É esta a panaceia?