Matar uma Aldeia


Durante muitos anos, em muitas aldeias do nosso país, nem sempre situadas nos seus recantos mais profundos, as únicas instituições em funcionamento foram constituídas nos primeiros tempos da República, sobretudo as sociedades euterpes, as sociedades filarmónicas e em poucos casos os ateneus (estes eram muito mais urbanos).
Até à década de sessenta as aldeias do nosso País foram pontilhadas de uma instituição ímpar para o progresso das ideias então vigentes: as escolas.
Com efeito, o corporativismo espalhou por toda a parte, com indelével conhecimento da sociologia política que o suportava e da psicologia de massas que o haveria de manter por quatro décadas, a mais preciosa ventosa dos seus tentáculos: a escola.
Das igrejas já se haviam encarregue tantos séculos de monarquia e o Cerejeira…
O lado laico da “coisa”, sem outra hierarquia que não o Conselho de Estado, tinha nas pequenas escolas o bisturi necessário e suficiente para manter afastados dos habitantes das aldeias os órgãos cancerígenos aos olhos, aos ouvidos (e ao nariz?) da ditadura. E esse bisturi funcionava de forma muito precoce, antes de qualquer manifestação mais perigosa para a ordem e o dever.
Se Deus já estava tratado, ficavam também tratadas a Pátria e a Família…
A minha geração lembrar-se-á bem do lusito, dos heróis da história pátria, das infalíveis vitórias contra mouros e castelhanos… do “lá vamos cantando e rindo” e do “Angola é nossa”…, do burro, do rapaz e do velho que invariavelmente acabava sempre com o burro à garupa dos dois seres humanos…, do crucifixo rodeado pelo Salazar e pelo Tomás, acima do quadro preto e a professora de bata branca…
Revolução, vinte e cinco de Abril, 1974, e as escolas são assaltadas pela criatividade, inundadas pela democracia, constituem-se pólos de desenvolvimento humano e social, são secções de voto, são salas de reuniões, são a primeira sede dos embriões das colectividades de cultura e recreio, nos seus pátios as festas da aldeia renovam-se anualmente.
Lodo após a Revolução, as mais pequenas aldeias sofrem um grande incremento com a constituição de múltiplas associações e nelas se inscreviam, quase sempre as mesmas pessoas, é verdade, em torno do futebol, do folclore e do recreio.
Para as escolas vão os filhos, os vizinhos e vão todos, briga-se com a escolaridade obrigatória que rouba à pastorícia, ao campo e à pequena unidade fabril doméstica a mão-de-obra. Deprecia-se a escola que “não ensina nada”, que “no meu tempo é que se aprendia”, onde apenas “se brinca”.
Mas são cada vez em maior número os pais e as mães que levam os filhos à escola todas as manhãs.
Ostentam-se os diplomas com orgulho e até os adultos seguem os passos dos mais novos e sentam-se também nas mesmas “carteiras”: é a alfabetização no seu melhor, de Paulo Freire espreitam-se as técnicas, de João de Deus o método renasce. Educação de Adultos era nome de Direcção Geral.
E ora mete água pelo telhado que chove, ora é o aquecimento que não funciona, ora são os quadros pretos que estão completamente polidos, ora a iluminação é insuficiente, ora tem falta de uma pintura geral. E desleixadas na sua manutenção (em geral) as escolas tornam-se edifícios degradados, pouco confortáveis e menos ainda significativos no contexto da aldeia.
Com a mecanização agrícola, com os novos métodos de criação (e engorda, que de crescimento já nem se fala) do gado, com a “deslocalização” empresarial para locais mais favoráveis no contexto das vias de comunicação e dos baixos salários, a aldeia começa por perder as oficinas tradicionais – o segeiro, o correeiro, o ferrador, o tanoeiro… - vai perdendo o convívio das ombreiras das portas e das tabernas (que a ASAE se encarregaria de fechar) e atira para uma data de Agosto a festa anual em honra da sua santa padroeira, a fim de ter presentes os euros dos compadres emigrantes…
E a escola lá estaria… não fosse a voracidade imobiliária ter tanta influência nas decisões de política educativa: agora fecham-se as escolas dos nossos pais (e de todas as gerações que os precederam) para construir centros escolares!
Os argumentos são de peso: são as bibliotecas, as salas multimédia, os pavilhões desportivos, os refeitórios…
Não se pondera a desertificação das aldeias, o envelhecimento das populações residentes… e por outro lado o movimento cada vez maior de tornar as aldeias em meros dormitórios…
Mas há solução: conservar o parque escolar existente e dotar as aldeias e as sedes dos Agrupamentos de transportes eficazes para que os alunos das escolas “periféricas” possam usufruir desses bens do desenvolvimento.
E assim as aldeias não ficavam sem os gritos e os risos das suas crianças, os seus avós não ficavam sem ninguém a quem contar histórias antigas e os professores, quando estivessem a trabalhar o passado do meio local, tivessem crianças motivadas pelo conhecimento das suas aldeias, das aldeias dos seus avós…

PARA QUE NÃO SE MATEM AS ALDEIAS!