Ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX assistiu-se à fixação nas margens do Tejo, entre Santarém e Vila Franca de Xira, de centenas de famílias de pescadores oriundas de Norte. Primeiro vindos de Ovar e da Murtosa e depois de Vieira de Leiria. Foram chamados de “avieiros” e criaram verdadeiras comunidades com uma cultura e modos de vida próprios. Lembre-se a obra de Alves Redol que nos descreve a vida dessas gentes.
É esta “cultura avieira” que se pretende elevar a Património Nacional através dum projecto em fase de aprovação e que comporta inúmeras acções a desenvolver ao longo do rio Tejo. O sucesso desses projectos só será possível se as populações e as instituições neles se envolverem empenhadamente. Não nos podemos esquecer que o Cartaxo, em particular a freguesia de Valada, e sobretudo a Palhota, são peças relevantes deste processo.
A equipa coordenadora do projecto está sedeada no Instituto Politécnico de Santarém e tem desenvolvido um trabalho imenso visando a criação das condições para a realização do projecto.
Queríamos, ainda, a distinguir dois factos que pelo seu carácter ecológico não poderíamos deixar de referir.
Em primeiro lugar o repovoamento do Tejo pelo sável, espécie hoje quase desaparecida e que desempenhou um papel fundamental na deslocação dos avieiros. Este projecto paralelo e associado ao da candidatura da “cultura avieira” a património nacional conta com a indispensável colaboração dos pescadores na recolha dos ovos fertilizados do sável que serão encaminhados para as incubadoras a cargo da Escola Superior Agrária. Pretende-se, assim, combater as desastrosas e habituais agressões ecológicas que quase erradicaram o apreciado sável dos nossos rios. Prevê-se, em fase posterior, estender este projecto ao rio Sado.
A considerar, em segundo lugar, a questão do “meichão”, isto é, a pesca da enguia-bébé que acabará por provocar na prática o desaparecimento, total ou parcial, da enguia dos nossos rios. É um problema nacional que aflige todos os cursos de água e não apenas específico ao Tejo. Por agora só o rio Minho está protegido devido á acção conjugada das polícias dos dois lados da fronteira. O fulcro do problema reside na existência de redes que abastecem um mercado espanhol apreciador da pequena enguia e que arrecadam lucros enormes. Urge que as autoridades portuguesas e espanholas combatam eficazmente mais este crime ecológico.
Projectos como o da “cultura avieira” contribuirão para que se reparem estes e muitos outros abandonos e se construam as necessárias pontes entre passado e futuro viável.