É habitual ouvir-se dizer que, apesar de todos os desastres ecológicos, os oceanos seriam uma reserva quase infindável de recursos alimentares e energéticos. Os mares purificariam o ar, as suas águas dessalinisadas tornavam-se potáveis. As jazidas minerais esgotadas em terra, iam-se procurar nos fundos oceânicos. Numa palavra, os mares salvariam a humanidade e as terras debilitadas. E é verdade que as potencialidades dos mares são imensas desde, bem entendido, que não sofram o mesmo tratamento a que foi submetida a terra.
Mais de 80% da superfície do hemisfério Sul e mais de 60% do hemisfério Norte são ocupadas pelos oceanos e mares interiores. As suas águas absorvem quase ¾ (71% exactamente) da radiação solar que atinge o nosso planeta. Ainda que os organismos e os mecanismos desenvolvidos sejam diferentes estima-se que as quantidades de matéria viva produzida pela fotossíntese nos oceanos e sobre os continentes sejam praticamente idênticas. Se a mesma engenhosidade que foi desenvolvida na terra, desde a Revolução agrícola no Neolítico, fosse aplicada nos mares, poderíamos multiplicar por três a nossa fonte de recursos.
Mas…a realidade é bem diferente. Como seria de esperar tratámos os mares da mesma maneira com que nos portámos para com a terra. Neste momento, ¾ das zonas de pesca estão esgotadas ou altamente reduzidas. Durante dezenas de anos encaminharam-se para o mar esgotos e os mais diversos lixos, entre eles resíduos nucleares com consequências desconhecidas. As chuvas e os rios arrastam para os mares a poluição gerada na terra. Os organismos marinhos ressentem-se de forma alarmante, a produção de oxigénio baixa rapidamente, os belos e ricos corais entram na longa lista dos seres em extinção. Fizeram-se com fins militares, no Pacífico, um sem número de experiências atómicas. Os petroleiros, por acidente ou criminosa lavagem, lançam rios de combustível nos oceanos. O rol é infindável. Afinal os mares não eram uma reserva de vida, mas simplesmente, mais uma imensa lixeira.
Este drama global tem uma outra vertente. As tempestades e os furacões, fruto do aquecimento global, multiplicam-se de forma inquietante. O degelo dos pólos e dos glaciares atinge velocidades superiores às previsões mais pessimistas. Durante o século XX o nível dos mares aumentou 20 cm, mas poderá ir até aos 7 m. Os gelos árcticos podem desaparecer até 2030 ou 2015, segundo algumas previsões. Já se prevêem 200 milhões de refugiados climáticos para meados do século. As cidades costeiras, entre elas algumas das maiores cidades, correm grandes riscos. Um país como o Bangladesh terá 1/3 do seu território alagado. Outros países, constituídos por ilhas baixas, desaparecerão.
Poderá ainda o homem do leme do poema de Pessoa gritar, ao mostrengo que está no fim do mar, que quer o mar que é dele. Sem a vontade dos povos e de alguns novos “El-Reis D. João II”, desta vez, o mostrengo tem todas as hipóteses do seu lado.