A Autoridade Florestal Nacional deu a conhecer o número de incêndios florestais ocorridos em 2009 até 15 de Maio. Os mais de 16 mil hectares ardidos correspondem a quatro vezes mais que a área consumida, no mesmo período do ano anterior e cerca de ¾ no único mês de Março. Sem questionar os números ou as estatísticas comparativas, assunto de somenos importância, importa salientar que 16 mil hectares reduzidos a cinzas é uma área enorme se considerarmos que se refere a um espaço de tempo muito antes da tradicional época dos fogos florestais. Curiosa designação inventada por um qualquer burocrata criativo no conforto climatizado do seu gabinete e que ainda não compreendeu que floresta, digna desse nome, é coisa que há muito não existe no calcinado país que é o nosso. Ao declarar-se haver uma época de fogos admite-se implicitamente que terão de acontecer. Pois se é a fruta da época! Desenvolve-se, assim, uma aceitação passiva e conformista, nos antípodas da reacção combativa e esclarecida que a situação há muito exige.
Dois factos curiosos foram também veiculados pela comunicação social que ultimamente tem andado estranhamente alheada do problema, em particular a televisão. Primeiro: os distritos mais atingidos foram os de Vila Real, Bragança e Braga, com cerca de 60% da área total ardida. Serão estas regiões habitadas por uma maior percentagem de pirómanos ou os outros distritos já não tem muito para queimar? Porque não restam muitas dúvidas sobre a origem criminosa destes fogos. Segundo: o ordenado recebido pelos vigias que estão a ser instalados. Fala-se de 20% do subsídio de desemprego. Não se percebe bem a quanto monta, mas que deve ser uma miséria, ninguém duvida. A essa mais que provável insignificância junta-se subsídio de refeição e de transporte. Assim se faz justiça porque aquelas pessoas também comem e não devem viver no alto das torres de vigia.
Parece que ainda se não compreendeu, ou não se quis perceber, que as melhores formas de lutar contra os incêndios são a instalação duma agricultura e duma floresta consequentes. Uma agricultura que alimente a totalidade da população e que não nos coloque numa situação de angustiante dependência. Os campos cultivados e a presença do agricultor constituem a melhor barreira para os incêndios. Quando se fala de floresta não nos referimos a pinhais nem a eucaliptais, por si sós autênticas bombas incendiárias e prelúdio do deserto, mas árvores de folha caduca, produtoras de bom húmus e que proporcionem um aumento da pluviosidade. Para quando um necessário e verídico plano de florestação? Até os pirómanos que abundam, e não só por cá, iriam ter uma vida bem mais dura.
Assim, continuaremos a moldar um país irreconhecível, duma assombrosa fealdade e a lançar para a atmosfera milhões de toneladas de carbono.
Que surpresas nos reserva a próxima época de fogos? É que já há pouco para queimar…