Reinventar a Sociedade


Em determinado momento da História surgiu nas sociedades humanas uma profunda diferenciação entre os seus membros, e um grupo dominante açambarcou os bens e a riqueza produzidos e, obviamente, a condução e os destinos das mesmas. Desde esse instante crucial – diferente, na escala do tempo, consoante as sociedades, como se sabe – que uma luta permanente percorre os caminhos sinuosos da História. Um combate, ora aparentemente adormecido, por vezes preponderante e vibrante, mas nunca esquecido nem abandonado. Um combate pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade, para retomar a simbologia da Revolução Francesa.
Hoje, mais que em qualquer outra época da História, agudizaram-se as razões que tantas lutas e sacrifícios geraram, mas também utopias, sonhos e paixões. A igualdade e fraternidade, não são perceptíveis e a liberdade conhece dias difíceis que o verniz democrático não consegue disfarçar. Segundo relatório do “Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento”, 60 países, desde 1980, não param de empobrecer, cerca de um quinto da população mundial vive com menos de um dólar por dia e cerca de um sexto não consegue satisfazer as suas necessidades elementares. A miséria e a pobreza assolam continentes inteiros, agravadas pelas políticas neo-liberais. As desigualdades aumentam em todo mundo, seja na China ou nos Estados Unidos, na Nigéria ou na Suécia. “As três maiores fortunas do mundo são superiores ao PIB do conjunto dos países menos avançados, isto é, de cerca de 600 milhões de habitantes”. Os 20% mais ricos da população mundial dispunham de 86% da produção do planeta e os 20% mais pobres menos de 1%. Estes dados são referentes aos derradeiros anos do século passado. Depois, seguramente, a situação agravou-se. Os ideais da Revolução Francesa continuam a morar no recanto dos sonhos nunca atingidos.
Mas a essas exigências fundamentais teremos, hoje, de juntar uma quarta dimensão que é a defesa e estabilidade da vida do Planeta. É, pois, necessário reinventar a sociedade de amanhã, criar uma nova indústria e transportes não-poluentes, uma outra agricultura mais sã e mais rica, controlar a explosão demográfica que a produção não consegue acompanhar, reconstituir, sempre que possível, florestas, habitats, os ciclos naturais e a pureza da água, evitar todas as emissões de gases que concorram para o efeito de estufa ou o abandono de outros produtos tóxicos. Vasto programa a que se acrescentaria a invenção de novos conceitos para o trabalho, o consumo e o lazer. É preciso mudar. Não esperemos que a Natureza nos imponha uma dolorosa e radical mudança.   
Os dados utilizados neste artigo foram colhidos no livro de Michel Beaud “O desequilíbrio do mundo”, editado pela “Terramar”, que aconselhamos. Outro conselho oportuno. Consuma frutos e legumes da época e evite produtos que viajaram milhares de quilómetros porque são colhidos mais verdes, habitualmente mais tratados e o seu transporte é uma imensa fonte de poluição. Há pequenos gestos quotidianos que beneficiam a todos, começando por nós próprios.